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A criação do mito do
Brasil Holandês
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Ao pensar escrever este trabalho
para Klepsidra, levei em consideração a curiosidade que passa
a muitos de nós sobre o período em que parte do Brasil foi governada
pelos holandeses (1630 a 1645, em Pernambuco principalmente).
As principais leituras basearam-se
em "Tempo dos flamengos", "História geral da civilização
brasileira", "Guerras do Brasil (1504-1654)" e "História
da vida privada no Brasil".
Talvez a leitura tenha ficado um
pouco "viciada" nos escritos de Mello Neto ("Tempo dos flamengos"),
mas isto ocorreu principalmente pela dificuldade em se encontrar nas
bibliotecas outros livros sobre o tema (como obras "Olinda
restaurada" e "Os holandeses no Brasil" que estão
extraviados ou sempre locados).
A Guerra se baseou
muito nos fortes.
Vista atual do Forte
Orange, na Ilha de Itamaracá
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A conquista
A invasão holandesa ao Nordeste
Brasileiro se deu entre os anos de 1630 e 1654, com dois grandes
períodos de guerras: 1630-1635 e 1645-1654 quando os portugueses
finalmente reconquistaram o centro econômico de sua principal
colônia.
O senso comum e os discursos dos
guias turísticos mostram, mesmo que indiretamente, a idéia de
que o Brasil poderia ser bem diferente se a colonização
holandesa tivesse funcionado. Não existiria um "Brasil" coeso,
mas com certeza este "Brasil holandês" teria algumas bases
sociais e econômicas bem diferentes do nosso "Brasil português". |
A visão deste "Brasil melhor" que é
tanto difundida, é influenciada pelo fato do governador da colônia
holandesa ter sido o Conde Maurício de Nassau, cuja popularidade era
ampla entre todas as culturas.
A tomada do Nordeste Brasileiro pela
WIC (Companhia Holandesa das Índias Ocidentais) se deu após diversos
anos de estudos, onde grande parte da comunidade judaica local
colaborou com os invasores, devido às perseguições sofridas junto
aos católicos. Também foram utilizados alguns espiões nos barcos que
para cá vieram, que registraram a geografia do local e levaram
índios à Europa. Havia dois interesses fortemente ligados na decisão
holandesa de dominar as colônias sul-americanas dos portugeses.
O primeiro deles era o fato da
Holanda ter se tornado inimiga de Portugal após este ser vassalo da
Espanha, o outro o financeiro propriamente falando, visto que a
produção e o comércio de açúcar eram extremamente lucrativos e os
holandeses já dominavam as transações comerciais deste produto.
Após a morte do infante D. Henrique
em 1580, houve uma grave crise na linha de sucessão ao trono
português, visto que o jovem Rei ainda não havia deixado herdeiros.
Não me atarei muito às discussões da corrida de sucessão de
Portugal, visto que este não é o tema deste trabalho. Após muita
discussão internacional e uma tentativa de golpe, finalmente o Rei
de Espanha, Felipe II (Felipe I de Portugal) assume o trono fazendo
com que Portugal se torne inimigo consequentemente da Holanda, por
esta ser inimiga da Espanha.
A Holanda tinha diversos
investimentos no Brasil com empréstimos a senhores de engenho e
intensas ligações comerciais com a venda de açúcar e de pau-brasil.
Em 1621 foi criada a Companhia das Índias Ocidentais, de capital
aberto na Bolsa de Valores de Amsterdã, e nos mesmos moldes da já
importante Companhia das Índias Orientais. Quem presidia a WIC
(sigla em flamengo) era o Conselho dos XIX.
Primeiramente tentou-se conquistar a
cidade de Salvador, capital administrativa da colônia portuguesa,
porém com a derrota optou-se por Olinda e Recife, centros
econômicos. Em 1630 uma frota composta de 56 navios, com 3780
tripulantes e 3500 soldados chega a Olinda. Rapidamente dominaram
esta vila e pouco tempo depois a de Recife.
| Matias de Albuquerque,
governador português de Pernambuco à época, levantou acampamento
em Arraial de Bom Jesus com a intenção de organizar a defesa.
Tal centro de defesa foi importantíssimo quando em 1631 chega
uma frota hispano-portuguesa de 23 navios para o contra-ataque.
Em parte a tal contra-ofensiva foi triunfante, visto que os
navios desembarcaram em Alagoas e seus efetivos conseguiram
forçar os holandeses a abandonar e incendiar Olinda para
defenderem somente Recife.
Porém, a política expansionista
holandesa não seria freada ai, visto que no mesmo ano estes
partiriam para tentar, sem sucesso, a conquista da Paraíba e do
Rio Grande do Norte. Tal conquista, porém, já estaria
concretizada em 1635, quando o domínio holandês no Brasil, ou o
"Brasil Holandês" já chega até o Rio Grande do Norte. Até junho
do mesmo ano, excetuavam-se somente o Arraial de Bom Jeses e o
Forte de Nazaré nesta conquista, porém neste mês caem estes dois
últimos focos de resistência. |
Vista de uma das
principais igrejas de Olinda,
com arquitetura
tradicional portuguesa colonial
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A chegada de Maurício de
Nassau
1637 pode ser considerado um marco
na história da colonização holandesa no Brasil, pois é neste ano que
chega seu mais famoso e importante administrador, o Conde Maurício
de Nassau (João Maurício de Nassau-Siegen).
Nassau marcou época como governador
tentando realizar uma política conciliatória entre holandeses e
portugueses, além de oferecendo liberdade restrita de credo para
católicos e judeus. Entretanto, isto não impossibilitou uma
crescente onda anti-semita baseada na ideologia religiosa e no poder
social e econômico que os judeus adquiriram com o tempo.
A política do Conde também trouxe
diversos avanços culturais e estruturais ao Recife. A ciência foi
incentivada, criou-se uma política de higiene e sanitarismo público.
Foram construídos jardim botânico, zoológico, museu artístico e um
plano urbanístico para a Cidade Maurícia, baseado no urbanismo
holandês.
O governador combateu a oligarquia
local dos senhores de engenho, incentivando o crescimento de uma
nova classe dominante, a burguesia. Deste modo, foram combatidas a
monocultura e a fome. Todo o interior, entretanto, ainda era tomado
pelos portugueses que tinham o conhecimento da produção da
cana-de-açúcar e consequentemente a economia em suas mãos, enquanto
o poder institucionalizado estava nas mãos dos holandeses.
Com a conquista assegurada, o
governo holandês ofereceu aos imigrantes e aos senhores de engenho
portugueses que não fugiram para a Bahia diversos incentivos fiscais
e empréstimos a prazo para a reconstrução dos engenhos arrasados
pela guerra, com gado morto e escravos fugidos.
O movimento de reconquista
português
Quando D. João VI fez a revolução e
acabou com a União Ibérica em 1640, Portugal passa a ser aliado da
Holanda contra a Espanha, o que altera profundamente a situação no
Nordeste Brasileiro. Enquanto o armistício ainda não é assinado,
Nassau parte para a conquista de novos territórios como São Paulo de
Luanda em Angola, o Golfo da Guiné e o Maranhão.
| D. Fernando de Mascarenhas se
torna o responsável pela reconquista, vindo à América com 86
embarcações e 11.000 soldados já em 1640 mas somente 1000 homens
conseguiram desembarcar na Ponta dos Touros. Oficialmente o Rei
português é contra este movimento, mas secretamente o apoia e
financia.
A guerra foi se prolongando e
ficando sem perspectivas de fim fácil. Somente em 1644, mesmo
ano da saída de Nassau do governo, os portugueses conseguem
reconquistar o Maranhão.
No ano seguinte, eclodiria a
primeira grande insurreirção, que foi poucos dias antes
denunciada por uma carta anônima ao governo holandês. Apesar
disso, os portugueses conseguem reconquistar Alagoas e Sergipe,
fundando o Arraial Novo de Bom Jesus, em homenagem ao primeiro
foco de resistência destruído anos antes. |
Área máxima do
império colonial holandês via WIC no Século
XVII. Sob a sigla VOC
estão os domínios da Cia. das Índias
Orientais, não
representados em sua totalidade neste mapa
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Mapa do auge da
conquista holandesa no Nordeste Brasileiro, tendo
o Rio São Francisco
como fronteira Sul e o Maranhão como fronteira Norte
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Com o desenrolar dos combates,
os holandeses passam a ficar cada vez mais na defensiva,
centralizando seus esforços em Recife, Ilha de Itamaracá,
Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará e Fernando de Noronha.
É neste movimento que aparecem
as famosas batalhas dos Guararapes, marcos da guerra de
reconquista, ocorridas em 19 de abril de 1648 e em 19 de
fevereiro de 1649. As intenções portuguesas eram de fechar uma
passagem para o Arraial Novo de Bom Jesus e para o Cabo de
Santos Agostinho. Nestes importantes confrontos, lutaram 4500
holandeses contra somente 2200 portugueses.
Apesar da enorme desvantagem
quantitativa do lado português, na primeira batalha morreram 500
holandeses, tendo os outros fugido para Recife. |
No ano seguinte, ocorre o segundo
embate, 3510 homens e 6 canhões holandeses enfrentam 2600 motivados
portugueses. Mais uma vez a vitória é arrasadora para o lado
lusitano, que exterminou a vida de 1000 flamengos.
Representação
romântica da batalha dos
Guararapes entre
portugueses e holandeses
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Diante de tais perdas, a WIC se
torna cada vez mais fraca, estando já praticamente falida e com
levando diversas críticas na metrópole. Passam assim a uma
tática suicida politicamente, cobrando desesperadamente os
empréstimos feitos aos senhores de engenho que irritados passam
a apoiar mais ainda a causa portuguesa.
As batalhas continuarão até 23 de
janeiro de 1654, quando os holandeses cercados e reunidos no
forte das Cinco Pontas se rendem finalmente às tropas
portuguesas com a garantia de que poderão voltar a salvo para a
metrópole.
Os judeus, que tanto ajudaram
aos holandeses, abandonaram Recife e se dirigiram a outras
colônias holandesas, como o Suriname, a Jamaica, Nova Amesterdã
(atual Nova York), além da própria Holanda. |
Um tratado de paz, porém, seria
assinado somente sete anos depois em Haia após por duas vezes a
armada holandesa ter surgido no Rio Tejo em Portugal para forçar
este país a indenizar os flamengos pela tomada de seus territórios
na América do Sul. Fica acertado que os holandeses desistiriam
oficialmente destas terras ao serem indenizados em 4 milhões de
cruzados, restituição de sua artilharia e favorecimentos comerciais.
Foram realizados pagamento em parcelas anuais de 250.000, tendo o
Brasil contribuído ao final com 1.920.000.
Políticas urbanas
Os holandeses propriamente ditos
estiveram durante toda a ocupação (24 anos) encurralados em uma
pequena faixa de terra que acompanhava o litoral e onde ficavam as
suas cidades. A política colonizadora holandesa baseou-se nas
cidades, diferentemente da política basicamente agrária portuguesa.
Isto acabou gerando diversos
problemas de abastecimento e de vivência nas cidades, onde por
diversos momentos houve longos períodos de fome e epidemias. Outro
grande problema era o habitacional, afinal havia pouco espaço em
Recife e as políticas habitacionais na Ilha de Antonio Vaz não
surtiram efeito até a criação de uma ponte juntando-a ao núcleo
urbano do Recife. O problema habitacional atingia grandes camadas da
população, a cidade do Recife foi tomada por sobrados de dois ou
três andares, cortiços, quartos coletivos para os funcionários da
WIC. Foram realizados também aterros em mangues para ampliação da
área habitável. Com estes problemas, os aluguéis atingiam preços
exorbitantes na cidade.
Já Olinda, antiga capital portuguesa
e centro político da região, foi primeiramente utilizada pelos
invasores. No entanto, devido a sua difícil defesa, logo foi
abandonada e incendiada. Depois disso, os portugueses passaram a
reconstrui-la e utilizá-la como centro de resistência. Porém, logo
esta reconstrução foi coibida por Nassau, que queria a ocupação da
Ilha de Antonio Vaz.
O governante planejou e incentivou a
ocupação da chamada Cidade Maurícia, totalmente planejada nos moldes
holandeses. Pretendia-se com sua construção aliviar a lotação
habitacional que havia no Recife. Em Maurícia, havia um melhor
sistema de higiene e saneamento público, com o impedimento da livre
circulação de animais e luta pela limpeza das vias públicas, por
exemplo.
A construção civil foi largamente
introduzida e incentivada pelo governo holandês. Construiu-se, além
da Cidade Maurícia, mercados, fortalezas, diques e pontes, entre
outros. Estes marcos influenciaram em muito a visão que se têm até
hoje do governo holandês no Brasil: um poder formado por grandes
construtores de benfeitorias públicas. O método de construção
holandês era diferente do adotado pelos portugueses. Como exemplo a
este argumento, pode-se citar a configuração das casas com a
utilização de tijolos ou madeira ao modo nórdico.
A Câmara dos Escabinos era uma
entidade responsável pelo controle "civil" da vida urbana. Nela
estavam cinco holandeses e quatro "dos da terra", eleitos por um
eleitorado selecionado. Os colonos que para cá viam muitas vezes
eram pobres demais para empregar negócios, e assim necessitavam
sempre de empréstimos por parte de particulares ou da WIC, o que
acabou gerando extremo endividamento da população. Mello Neto
descreve a vida social e moral na colônia holandesa como negra em
muitos momentos, o que assustava os protestantes calvinistas,
principalmente com relação às prostitutas.
Políticas Agrárias
A ocupação do Brasil, apesar do seu
teor urbano-burguês, se deu principalmente para a exploração e
comércio das plantações de cana-de-açúcar. Os holandeses tentaram de
início se tornar senhores de engenho, porém, sem o devido
conhecimento da cultura, acabaram com o tempo cedendo seu lugar aos
antigos senhores portugueses. Muitos destes holandeses que
pretenderam se tornar senhores eram altos funcionários da WIC, que
além de não realizarem suas tarefas também não eram senhores em
tempo integral. Assim, não eram nem uma coisa nem a outra. Outro
tipo de comércio que também chamou a atenção dos holandeses foi o de
pau-brasil, que logo se tornou monopólio da WIC.
Os portugueses e os brasileiros já
detinham o conhecimento para o cultivo da cana, passando assim a
dominar a agricultura e por conseqüência a economia, enquanto os
holandeses dominavam a política. Mas a economia açucareira do
governo invasor foi dificultada, além das pestes, secas e enchentes,
pelos incêndios e saques patrocinados e promovidos pelo governo
baiano de origem portuguesa.
A política de Nassau para combater a
fome criou diversos atritos do governo com os senhores, já que se
exigiu a plantação de mandioca para consumo local, e os senhores,
que não aceitavam a imposição muitas vezes passavam por vexames em
suas próprias terras obrigados pelas forças holandesas a iniciar o
novo cultivo. Estes fatos foram decisivos para a decisão dos
senhores de iniciarem uma rebelião em 1645, criada e sustentada pela
elite agrária de origem portuguesa.
A revolta chefiada pelos senhores
conseguiu apoio dos governos inglês e francês, além dos portugueses
baianos e, secretamente, do governo português pós-restauração de
1640. Confiando nos acordos com os portugueses, os holandeses
diminuíram o potencial defensivo do Brasil.
O Nordeste brasileiro durante o
período nunca foi auto-suficiente em alimentos, apesar das
tentativas governamentais de incentivo à plantação de mandioca e de
utilização de Alagoas como centro produtor de gêneros alimentícios
de primeira necessidade e de gado.
A questão religiosa
Os holandeses nunca afirmaram
abertamente ser conta os portugueses, mas somente contra os
católicos. Apenas escondia-se a perseguição, pois a religião
predominante dos portugueses era a católica. Os holandeses sabiam do
poder das ordens religiosas, e assim as expulsaram, principalmente a
Jesuíta. Apesar disso, Nassau permitiu nas cidades a realização de
missas "a portas fechadas". Entretanto, no interior, com o enorme
poder dos portugueses senhores de engenho, a política religiosa era
menos restritiva.
A colonização após a invasão não se
deu somente com a vinda de holandeses. Era incentivada a vinda de
populações principalmente protestantes, como ingleses, franceses e
escoceses. Mesmo assim, a vinda de judeus para a região foi grande
também. É interessante observar como houve uma espécie de "migração"
entre religiões devido aos casamentos. Protestantes, católicos e
judeus casavam-se entre si e muitas vezes um dos elementos do casal
mudou de religião apenas para acompanhar o outro.
Os judeus
A comunidade judaica no Recife foi
muito grande e poderosa, fortemente ligada aos judeus de Amsterdã.
Depois de certo tempo, os judeus passaram a dominar grande parte da
economia burguesa devido ao fato de se expressarem em ambos os
idiomas e fazer empréstimos e compras à vista de escravos e venda a
prazo.
A cultura judaica na América teve
início no Recife holandês, com a vinda de diversos líderes
religiosos e culturais. Apesar da perseguição dos protestantes, que
apenas continuaram com a perseguição portuguesa, os judeus tinham
aqui mais liberdade religiosa do que na desfrutada na Europa, e até
chegaram a abrir uma sinagoga - a primeira de toda a América. É
interessante observar a rivalidade que foi criada entre judeus
holandeses, askhenazim e os judeus ibéricos, sefardins.
Após determinado tempo, começou um
movimento anti-semita no Recife, cujos motivos eram o poder
econômico e a facilidade para a aclimatação dos judeus, diferente
dos holandeses.
Os europeus de outras
nacionalidades
Nunca houve uma total harmonia entre
portugueses e holandeses. As relações sempre foram baseadas na
desconfiança. Logo o governo percebeu que o principal poder dos
portugueses estava nos seus senhores de engenho, e então tratou de
retirar o poder destes com a Câmara dos Escabinos e com vexames em
suas terras, transferindo o poder à classe média urbana.
As outras nacionalidades que vieram
para o Pernambuco Holandês foram todas protestantes - ingleses,
franceses e escoceses. Entretanto, durante a guerra de reconquista
de 1645-1654 grande parte destes europeus não-holandeses passaram
para as frentes portuguesas.
Os índios
Uma das bases da política
colonizadora holandesa foi as alianças com os índios, que eram
anti-portugueses devido à escravidão indígena. Assim, estas tribos
se tornaram guardas das fronteiras do território holandês, ao norte,
sul e oeste. Além disso, tais índios também foram informantes das
riquezas minerais e da geografia da região dominada.
Antes mesmo da invasão, a Companhia
das Índias Orientais definiu que todo índio em terras conquistadas
teria direito à liberdade. Porém, chegou a haver uma breve
escravização, nas áreas mais distantes, de índios "inimigos". Isto
logo acabou, pois gerou desconfiança nos índios aliados. Por outro
lado, apesar de livres, os índios eram extremamente explorados,
maltratados e mal pagos.
Os líderes protestantes tentaram
durante longos períodos a catequização dos índios aliados. Buscou-se
a o estabelecimento de seminários para o ensino da moral
protestante, primeiro em holandês e depois em português, mas a idéia
não deu certo: os índios se rebelaram em 1643 contra a tomada de
suas crianças. Mesmo com o fim dos seminários e depois da saída dos
holandeses, padres católicos portugueses afirmaram terem encontrado
tribos de costumes protestantes.
É interessante observar que apesar
de aliados, os índios do Rio Grande do Norte, os tapuias, eram
também temidos pelos holandeses, devido à sua "selvageria e
violência". Um forte traço da ideologia holandesa com relação aos
índios foi que, apesar de aliados, as relações conjugais entre
brancos e índios sempre foram combatidas e repelidas.
Um mercado de
escravos no Brasil Holandês
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Os negros
No início, a política holandesa
foi de combater a escravidão por motivos ideológicos, mas assim
que percebeu a vantagem econômica desta passou a adotá-la
inclusive de forma monopolista, por parte da WIC. Os negros eram
extremamente necessários ao método de produção criado pelos
portugueses e seguido pelos holandeses. Seu tráfico ao longo dos
mares não tinha muitas diferenças. Inicialmente, as condições
dentro dos navios negreiros holandeses eram piores do que as
condições nos navios portugueses.
Somente depois é que melhoraram
esse quadro, permitindo até melhores lucros com menor
mortalidade. A preferência era pelos negros angolanos, "melhor
adaptados ao trabalho escravo". Para alimentar o crescente
mercado consumidor na América, a Holanda conquistou grandes
territórios na África para a obtenção de escravos. |
Apesar disso, o tratamento dado aos
escravos era melhor do que o oferecido pelos portugueses, inclusive
formando-se amizades entre holandeses e negros, posteriormente
alforriados. Durante a guerra de conquista de 1630-1635, os negros
dos engenhos e das lavouras fugiram e se refugiaram em quilombos
principalmente na região de Palmares. Estes foram constantemente
combatidos pelos holandeses, porém conquistaram muita força nesta
região.
Diferente do que ocorria com relação
aos índios, os pastores protestantes não demonstraram grande
interesse com relação à evangelização dos negros, o que inclusive
foi apontado como alguns como motivo das derrotas nas guerras de
1645-1654. Afirmava-se que Deus estaria os punindo por abdicarem do
ensino aos negros.
Conclusão
A ocupação holandesa do Nordeste
Brasileiro é vista como um passado que não deveria ter sido
encerrado pela reconquista de 1645-1654, pois a política holandesa
teria formado um Brasil mais forte economicamente e, desde o seu
início, urbano. Esta visão é superficial: para negá-la, bastaria
observar-se o desenvolvimento das colônias holandesas nas Antilhas,
por exemplo, que atualmente estão tanto no Terceiro Mundo quanto o
Brasil.
Em contrapartida, a política
holandesa restringia muito mais as possibilidades econômicas do
Nordeste do que a portuguesa, bem como limitava o plano social, com
a crise entre brancos e judeus, negros e índios. Assim, durante os
24 anos de dominação foi criado uma grande segregação
religiosa-racial.
Moeda do
Brasil Holandês,
de 1645
|
No entanto, não devemos deixar
de lado os pontos positivos da política holandesa, e
principalmente do Conde Maurício de Nassau. Com sua base urbana,
trabalhou para impedir o poder dos senhores de engenho e das
oligarquias agrárias, incentivando assim a transformação da
sociedade pernambucana de agrária para urbana. Além disso, foram
muitos os esforços em melhorias para a população local, que viu
em Nassau um governante que os ajudou com suas políticas de
combate à fome e à monocultura e de higiene e saneamento básico. |
A comunidade judaica na América até
os nossos dias cita orgulhosa os tempos de colônia em Pernambuco,
onde desfrutava de liberdade religiosa impensável na época para os
padrões europeus e católicos.
Se podemos falar de algum erro do
governo holandês, que acabou por gerar a revolta e perda de
Pernambuco, foi de não ter incentivado mais os holandeses a acessar
a terra. Deste modo, os portugueses, apesar de dominados, tinham a
economia em suas mãos, autêntica base do projeto econômico da
Companhia Holandesa das Índias Ocidentais.
Criou-se um mito com relação ao
governo de Nassau para a população do Recife e região, algo como um
herói nacional. Ignora-se o fato de Nassau ser um governante a
mandos da mercantilista, ou capitalista, Companhia das Índias
Orientais. Suas políticas muitas vezes foram feitas para impedir uma
guerra civil e a instabilidade social na colônia. O incentivo à
colonização da Ilha de Antonio Vaz se deu principalmente após a
superlotação da cidade do Recife, e Nassau, vivendo na colônia,
podia muito melhor do que o Conselho dos XIX perceber que, se não
fosse ampliada a área habitável da colônia, em breve uma insurreição
nasceria.
| O alemão Maurício de Nassau
representava somente uma tendência, que ia inclusive contra o
pensamento de grande parte dos comandantes da WIC, que tinham um
pensamento muito mais semelhante ao português, buscando uma
exploração interligada com o sistema colonial. Foi inclusive
esta diferença que proporcionou a saída prematura de Nassau do
governo colonial holandês no Brasil.
Obviamente, Nassau também fora
um incentivador da cultura e gastou muitas vezes dinheiro
próprio para criar locais onde havia um incentivo à cultura e à
ciência, como foi o caso do jardim botânico e do zoológico, por
exemplo. Gastou do seu próprio bolso para finalizar a obra da
ponte juntando o Recife à Cidade Maurícia, mas, mais uma vez,
devemos observar que este fato se deu também para incentivar a
cidade por ele planejada e para conter a lotação habitacional
que estava tornando insustentável o modo de vida e a própria
urbanização do Recife. |
Maurício de Nassau
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A colonização holandesa foi,
portanto, urbana e burguesa, diferindo assim da instalada pelos
portugueses, extremamente agrária. Não podemos afirmar se uma ou a
outra seria melhor para o futuro desenvolvimento do país, pois só
podemos observar o produto de uma delas e é superficial ao fazer
paralelismos com o desenvolvimento de colônias holandesas em outros
locais. O máximo que podemos afirmar é que, de 1630 a 1654, parte do
Brasil viveu sobre outro sistema social que foi combatido e
derrotado por problema internos dele próprio e pela classe social
dominante do sistema econômico-social que havia sido desmantelado.
Dúvidas permanecem em aberto,
principalmente porque a pesquisa que realizei não foi muito extensa.
Apenas busquei levantar os principais pontos sobre a permanência dos
holandeses no Brasil e discutir um pouco a criação do mito de
Maurício de Nassau e seu governo em Pernambuco com o que tinha à
disposição nas bibliotecas da USP. Espero mais tarde poder retomar
esta pesquisa e aprofundá-la muito mais.
Bibliografia
FAUSTO, Boris: "História do
Brasil". EdUSP, São Paulo, 1995.
HOLANDA, Sérgio Buarque de: "O
domínio holandês na Bahia e no Nordeste" in História
geral da civilização brasileira, 1º vol., livro 4, Difusão
Européia do Livro, São Paulo, 1960.
MELLO NETO, José Antonio
Golsalves de: Tempo dos flamengos: influência da ocupação
holandesa na vida e na cultura do Norte do Brasil. José
Olympio, São Paulo, 1947.
PUNTONI, Pedro: Guerras do
Brasil (1504-1654). Brasiliense, São Paulo, 1992, Coleção
tudo é história nº 141.
VILLALTA, Luis: "O que se
fala e o que se lê: língua, instrução e leitura" in MELLO E
SOUZA, Laura de (org.): História da vida privada no Brasil,
vol. 1. Cia. das Letras, São Paulo, 1997.
Dicionário de História do
Brasil. Melhoramentos,
São Paulo, 1976.
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