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...........Tendo,
nesse ano, vindo a Lisboa o Rei de Benoím pedir auxílio à Coroa de
Portugal contra uma rebelião no seu país, foi armado "cavaleiro" por
Dom João II, depois de baptizado com o nome de Dom João, em honra do
monarca
j
português. No seu regresso ao Senegal, foi escoltado por uma
esquadra de 20 j caravela~, comandad~s por Ped.r° Vaz da, Cunha;
poré~ este, an!es de chegar .à "j costa afrIcana, assassInou o ReI
de BenoIm. Ora, EI-ReI Dom Joao II nao castI-
gou, como
seria de esperar, o assassino do Príncipe negro convertido. Segundo
os cronistas Rui de Pina (24) e Garcia de Resende (25), "... não
quis EI-Rei envolver no crime outros culpados..." e teve em
consideração os altos serviços que aquele nave- gador
anteriormente prestara à Coroa. Ora, que "altos serviços"
poderiam ilibar Pedro Vaz "Bizagudo" de um tal crime? Tudo indica
que se tratava do reconhe- cimento do Brasil, na referida viagem de
1487.
Quando, em
1498, os navios de Vasco da Gama passaram os ilhéus atlân- ticos de
São Pedro e São Paulo (29°22' long. O; 0°56' lat. N) a cerca de 1300
km da costa brasileira e 1500 km da costa da Guiné -o que represe9ta
uma larguís- sima volta pelo interior do oceano, para quem vai
descobrir a India! -realiza- ram uma festa a bordo, por se acharem
em frente de terra portuguesa. Só depois inflectiram o rumo
para oriente.
Dois anos
depois, sendo Pedro Alvares Cabral "enviado também à tndia" Gá
descoberta por Gama), com 13 navios e 1200 homens, tudo levou
preparado para assinalar um novo descobrimento: uma das suas naus,
com mantimentos, era tão velha que logo se percebeu não se destinar
à tndia, pois não poderia arrostar o mar do Cabo da Boa Esperança
-"o das Tormentas". Durante a via- gem para oeste, não sofrera a
menor tempestade e ancorou em frente de Vera Cruz, no dia 23 de
Abril. Contudo, a política de sigilo forçou a diplomacia do
Reino a declarar que tal desvio de longitude na rota
pré-estabelecida (ir ao Brasil, quando o itinerário da viagem
seria contornar o sul do continente africano) se operara em virtude
de terríveis ventos tempestuosos. Ora, esta mentira diplo- mática
verificou-se em 1500, cinco anos depois da ratificação do
"Tratado de Tor- desilhas" de que, mais adiante, nos ocuparemos.
Na
realidade, como está hoje claramente provado, o navegador Cabral
apenas foi mandado "descobrir" oficialmente o Brasil, já
conhecido dos navega- dores portugueses (26). Com ele seguiu o
"Mestre" João que de lá mandou notí- cias a EI-Rei Dom Manuel I, por
aquela velha nau que regressava ao Reino, já que não tinha condições
para seguir rumo ao Oriente. E quem seria este .Mestre" João? João
Fernandes de Andrade que, 12 anos antes, já vogara por aquelas
paragens, ou o misterioso João Coelho (já mencionado) ? Certo
é que na sua missiva diz o seguinte:
"...
Quanto, Senhor, ao sítio desta terra, mande Vossa Alteza trazer um
mapa- -mundi que tem Pero Vaz Bizagudo, e por aí poderá ver Vossa
Alteza o sítio desta terra,. mas aquele mapa-mundi não certifica se
esta terra é habitada ou não; é mapa- mundi antigo,
e ali achará Vossa Alteza escrita também a Mina."
(24)
Historiador nascido por volta de 1440 e falecido em 1521 -in
"Chronica d'EI-Rei Dom João [[.'.
, (25)
Poeta e historiador, nascido em 1470 e falecido por volta de 1540-
in "Chronica d'EI-Rei Dom João
[I".
(26)
Vide "Pedro Alvares Cabral", de Metzner Leone; "Subsídios
para uma Biografia de Pedro Alvares Cabral", de Luís de Mello
Vaz de Sampayo.
Seria,
portanto, uma carta geográfica posterior a 1471, pois já indicava a
Mina, descoberta nessa data; mas só seria um traçado da costa, visto
ainda não indicar se o Brasil era habitado. Obviamente, tratava-se
de um mapa executado em 1487, quando da viagem para oeste de Pedro
Bizagudo e da carta de "Mestre" João se deduz claramente
terem sido feitas outras viagens, nas quais se
verificara ser o Brasil habitado.
Numa outra
carta, de Pedro Vaz de Caminha, enviada pelo mesmo navio ao
Soberano, o seu autor -que não era geólogo nem agrónomo, nem sequer
lavrador- repete muitas vezes a frase: "... plantando, dá...".
Ora, os tndios do Brasil desconheciam a agricultura de
plantação. Caminha limitava-se a verificar o bom resultado das
plantações de espécies europeias ou africanas que, logica- mente,
teriam sido efectuadas antes de 1500- como era uso dos
Portugueses, na sua política de agl"icultura experimental
(27).
Finalmente,
temos o texto de Duarte Pacheco Pereira (28) que relata: "... no
terceiro ano do Ji" osso Reinado, o
ano de Nosso Senhor de mil quatrocentos e noventa e oito, donde
Vossa Alteza mandou descobrir a parte ocidental, passando a grandeza
do mar oceano, donde é achada e navegada uma tão grande terra firme,
com muitas e grandes ilhas adjacentes a ela..."
Não podendo
tratar-se da Terra Nova (explorada pelos Portugueses, de 1471 a
1473), conhecida por ilha "dos bacalhaus", visto não ter muitas
ilhas adjacentes e nenhuma grande (é a Península da Nova Escócia,
com diminutos ilhéus), o autor referia-se, indiscutivelmente, às
ilhas de Trinidad, Barbados e às Pequenas Antilhas de
barlavento. Só que essas exploraçõess marítimas, como atrás se
justificou, tinham sido efectuadas antes da ordem oficial de
Dom Ma- nuel I, de 1498. Tratava-se, sim, da "terra de João
Coelho" e do Arquipélago que Cristóbal Colón, em 1492,
iria re-descobrir, 20 anos depois das expedições portu-
guesas. E continuavam a navegar por elas, já depois e apesar do
"Tratado de Tor- desilhas'~ como no caso da Florida, cujo
descobrimento os Espanhóis atribuíram a Ponce de Léon (29) e foi
contornada por Gaspar Corte Real, na viagem de 1494/1500.
Igualmente,
António Leme, numa "volta da Mina", viajara para oeste e encontrara
três ilh~s que se presume pertencerem ao Arquipélago das
Antilhas. O mesmo sucedera a João Coelho cujo feito nos é
sugerido pelo "Mapa de Maiolo" e mencionado, gritantemente,
pela queixa de Estêvão Frois, em 1514. Este últinio era acusado
pelos Espanhóis de efectuar descobrimentos na parte do Mundo
atribuída à Espanha pelo "Tratado de Tordesilhas"e alegava
ter unica- mente ido às regiões já descobertas por "...João
Coelho, o da porta (entrada da cidade) da Luz, vizinho de
Lisboa, já há vinte anos e um ". Portanto, em 1493, João Coelho
tinha prosseguido nas viagens, iniciadas já antes de 1487.
Na
realidade, o mapa do Visconde de Maiolo, datado de 1504 (existente
em Fano, na Itália), já chamava a toda a costa norte do Brasil
"Terra de Gonçalo Coelho'~ o que prova que andara um navegador
de apelido Coelho, talvez irmão
,
(27) Os Portugueses
experimentaram sempre a transplantação de todos os produtos agrí-
colas e silvícolas que consideraram susceptíveis de aclimatação
noutros continentes. Em Africa, onde as etnias aborígenes apenas
conheciam certas raízes comestíveis, alguns inhames e sorgo,
introduziram o milho, a mandioca, o arroz e batata doce (bases da
alimentação africana actual) e também as espécies vegetais
europeias; assim como as especiarias e árvores frutíferas da tndia
que, identicamente, trasladaram para o Brasil; vide «Especiarias
do Oriente no Brasil ena A/rica Por- tuguesa", de Edgard Valles
-in "Garcia de Orta" -Vol. 6 -N.o 4.
(28) In "Esmeraldo de Situ Orbis",
escrito em 1505. (29) Vide "História dos Descobrimentos",
de Duarte Leite; Damião Peres, ob. cit. e Gago Cou- tinho, ob. cit.
do "Mestre"
João, por esses lados. Ora, dado o tempo que levavam as notícias a
atravessar o Atlântico para chegarem a Lisboa; a verificar-se a
suafuga informa- tiva; a percorrer os caminhos do Mediterrâneo,
até à Itália; e ainda a morosidade da execução dos mapas pelos
cartógrafos, aquelas viagens registadas por Maiolo seriam bem
anteriores.
Mas nem só
as Américas Central e Austral atraíam os marinheiros portu- gueses
na sua exploração marítima para oeste. Já no reinado de Dom Afonso
V, este soberano concertara com o Rei Cristiano I, da Dinamarca e
Noruega (1448- -1481) uma expedição para o Ocidente. Os
Dinamarqueses (Vickings), embora desconhecendo a ciência náutica, já
teriam atingido a Groenlândia, o que não lhes seria difícil, em
virtude das curtas distâncias intermédias entre acosta da Noruega e
as ilhas Shetland, Faroés e Jean Mayen e (pelo umbral Faroés-Islân-
dia) a Islândia e Groenlândia. Contornando o Cabo Faver e rumando ao
norte, até ao Círculo Polar Artico, talvez tivessem encontrado
aTerra de Bafim e, daquele cabo para sul-sudoeste, atingir o
Lavrador. Se aqui chegaram, nada de positivo o indica antes de 1477
, ano da referida expedição luso-dinamarquesa, agora já navegando
cientificamente, com base na cosmografia aperfeiçoada por- tuguesa.
Depois dessa data e antes da primeira viagem de Cristóbal Colón,
só meras conjecturas duvidosas tendem a admitir a hipótese de um
descobrimento escandinavo da América. Todavia, tudo indica que os
Vickings já teriaI}l explo- rado, havia muito, a Ilha de Thile (de
que falava Ptolomeu) e que, no século XV, se chamou Frislândia
(de~ois, Iceland ou Islândia).
O dr. Lofus
Larsen ( O) procura assinalar o alvo da expedição luso-dina-
marquesa
como sendo a Ilha dos Bacalhaus (Terra Nova). Contudo, este notá-
vel historiógrafo parecia ignorar as anteriores viagens portuguesas
para Oci-
dente,
entre as quais a já mencionada de Diogo de Teive (1452) e outra de
João Vaz Corte Real, realizada em 1471 e repetida, com Alvaro
Martins Homem (1473), ambas dirigidas à mesma ilha a partir dos
Açores. De uma ulterior via- gem, Corte Real não regressou da Terra
Nova, pelo que seu filho Gaspar partiu (1494) para averiguar o que
lhe sucedera. Nesse sentido, fez outras expedições, a última das
quais em 1500, depois de El-Rei lhe ter conferido várias mercês;
também ele não voltou e o mesmo aconteceu a seu irmão Miguel que
fora em sua busca. Porém, este deixou a viagem assinalada por uma
inscrição num rochedo de Dighton -de que mais adiante trataremos.
Oficialmente a desco- berta da Ilha dos Bacalhaus foi atribuída
a Gaspar Corte Real, em 1500. Num dos seus itinerários, sempre
partindo dos Açores e antes de 1474 (visto que nesta data El-Rei lhe
concedeu uma das duas capitanias da Ilha Terceira, em recompensa dos
seus vários descobrimentos), apenas foi registada na docu- mentação
portuguesa, mas não divulgada O mesmo acontecera com as expedições
de João Corte Real e Alvaro Mar- tins Homem (1473) e a posterior,
luso-dinamarquesa (1477), da qual
Cristóbal Colón declarou ter
participado. A seguinte só se efectuou em 1492, ano em que Colón
atingiu o Arquipélago das Antilhas. Esta viagem de exploração
marítima, uma das mais arrojadas do seu tempo, realizaram-na Pedro
de Barcelos e João Fernandes Lavrador que, largando dos Açores
descobriram a península (a que o segundo deu o seu nome: Lavrador) e
percorreram todo o litoral nor-nordeste dessa zona oriental do
Canadá. --
(30)
In "The Discovery o! North America Twenty
Years Be!ore Columbus".
(31) In
"Tombo de Pedro Annes do Canto" -Biblioteca Pública de Ponta
Delgada.
TEXT. MASCARENHAS BARRETO
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